domingo, 27 de outubro de 2013

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Grupo de Estudo e Trabalho para a Melhoria e Revitalização do Assentamento Bela Vista

Por Francisco Antonio da Silva

    A história dos últimos 500 anos do Brasil tem sido marcada em linhas gerais pela luta dos proprietários de terras e os não-proprietários, ou seja, os "SEM TERRA". A terra no Brasil após a chegada dos portugueses tornou-se condição essencial para a estruturação do domínio estrangeiro sobre o nosso país. Para a efetiva ocupação do território os portugueses travaram guerras de extermínio e aprisionamento com os habitantes da terra e, contando com a ajuda da Igreja Católica, realizou também o etnocídio, ou seja, a destruição das crenças, saberes e formas de vida construídas durante milhares de anos pelos povos que aqui viviam.
    

Reivindicações do P.A. Bela Vista ao INCRA-CE


 

O Projeto de Assentamento Bela Vista, localizado no município de Jaguaruana-Ce, vem através deste documento apresentar à Superintendência Regional do INCRA no Ceará uma lista de reivindicações e, ao mesmo tempo, pedir agilidade na solução dos problemas vivenciados por este P.A. para que possamos contar com as condições mínimas necessárias para o desenvolvimento e melhoria das condições de vida dos assentados e assentadas.

  1. A recuperação da estrada que liga o assentamento à sede do município.

Todos os anos vivenciamos os mesmos problemas quando se inicia o período chuvoso, pois as estradas são cortadas pela chuva trazendo graves transtornos para o Assentamento Bela Vista e os outros assentamentos que ficam no seu entorno como os P.A's Serra Dantas, Bernardo Marinho I e Campos Verdes, assim como o acampamento Bom Jesus e localidades vizinhas como Gurgel, Pacatanha, Cabeço Branco, Lagoa da Salsa entre outras.

Os problemas advindos da precariedade das estradas são diversos e o principal deles é o interrompimento das aulas, pois no Assentamento funciona um Núcleo de Apoio Escolar, ou seja, estudam na escola do assentamento alunos das comunidades citadas anteriormente e do P.A. Serra Dantas. Também são prejudicados os alunos do ensino médio que estudam na sede do município. Este ano estes alunos (os que cursam ensino médio) passaram mais de três meses sem irem à escola, enquanto os que estudam na escola do assentamento tiveram mais de um mês de paralisação. Nos demais meses do período chuvoso a escola só funcionava quando os professores tinham condições de funcionar (muitos professores sofreram acidentes nesse período devido à precariedade das estradas).

Neste ano a estrada do assentamento foi cortada pelas águas em quatro trechos, o que dificultou o abastecimento e prejudicou a produção, pois o trator não tinha como chegar aos lotes para preparar os solos para o plantio.

Precisamos que seja agilizada a liberação dos recursos para a recuperação da estrada, pois do contrário se repetirão no próximo ano os mesmos problemas vivenciados há treze anos.

  1. Liberação dos recursos para a reforma das casas

No final de 2008 foram liberados recursos na ordem de R$ 3.000,00 (três mil reais) para reforma das casas do Assentamento Bela Vista. No entanto, a previsão total foi de R$ 5.000,00 (cinco mil reais), assim ainda faltam serem liberados dois mil reais (R$ 2.000,00). Nesse sentido, uma de nossas solicitações é a liberação deste recurso para que seja terminado o serviço das reformas. Este recurso é muito importante para os assentados, pois se destina à construção dos galpões que terão muita utilidade para os assentados.

  1. Sistema de abastecimento de água

O acesso à água é uma das condições para a melhoria da qualidade de vida dos assentamentos de reforma agrária. Um dos problemas que mais dificultam a vida dos assentados do Assentamento Bela Vista é o acesso à água. Hoje essa situação é bem melhor do que antes, no entanto ainda não se tem uma infraestrutura capaz de garantir a satisfação dos assentados, pois temos um poço que leva água à vila, no entanto, ainda não temos água encanada nas residências.

Nossa solicitação quanto a esta questão é que o INCRA-CE propicie condições para a construção do sistema de abastecimento de água do assentamento Bela Vista. Para isso, serão necessários a perfuração de um poço profundo na vila principal (pois o que temos não comporta uma ação desse tipo, já que nesta vila vivem 153 famílias) e a recuperação ou perfuração de um poço profundo na Vila da Sede (que tem 21 famílias), além dos recursos necessários para que a água possa chegar às torneiras de cada residência.

Consideramos que este será um investimento que trará um ganho de qualidade de vida incalculável para o assentamento, pois a partir daí pode-se pensar outras ações e projetos como "quintais produtivos", por exemplo.

  1. Acesso à Internet

O Assentamento Bela Vista, tanto em termos de área quanto de população assentada, pode ser considerado um projeto de grande porte para os padrões regionais. A sua população de crianças e jovens já conta com mais de 500 (quinhentos) indivíduos. Essa população tem necessidades que vão além das de seus pais e por isso se faz necessário o desenvolvimento de ações e projetos que atendam suas demandas em particular.

Nesse sentido, solicitamos desta instituição que pensa a reforma agrária numa perspectiva mais ampla a instalação de um servidor ou provedor de internet no Assentamento Bela Vista, que já conta com no mínimo quatro computadores e com perspectiva de aquisição por parte das associações de pelo menos mais dois. No momento a Associação Cooperativista Nova Vida do Assentamento Bela Vista está criando um departamento denominado Grupo de Estudo e Trabalho para a Melhoria e Revitalização do Assentamento Bela Vista – GETRAM, que estar elaborando um projeto para a instalação de um Laboratório de Informática, que contará com no mínimo 10 (dez) computadores. A disponibilidade do serviço de internet será uma grande contribuição do INCRA para com o Assentamento Bela Vista e o seu entorno.

A importância de se ter o serviço de internet justifica-se pelo fato de que a informática como ferramenta educacional tem se revelado um instrumento de grande importância para o desenvolvimento socioeconômico e cultural. A "inclusão digital", como se convencionou denominar a atual tendência da educação por meio das tecnologias da informação, tem contribuído, no Brasil e em outras partes do mundo, para dar oportunidades a milhões de crianças, jovens e adultos que não dispõem de condições e competências exigidas pelas sociedades contemporâneas. Assim, diversos projetos e ações neste campo têm contribuído para diminuição das desigualdades sociais e a superação da miséria, pois possibilita aos sujeitos envolvidos o desenvolvimento de competências e saberes que lhes proporcionam melhores condições de acesso aos bens (materiais e imateriais), serviços e mercado de trabalho.

Nesse sentido, os sujeitos que não têm um domínio mínimo das tecnologias da informação encontram um entrave a mais para sua inserção no "mundo do trabalho", pois embora disponham de competências e habilidades apreendidas no ensino regular, faltam-lhes os saberes para lidarem com um mundo que a cada dia reforça seus alicerces sobre a virtualidade e a rapidez das informações.

Nessa conjuntura, as categorias sociais desfavorecidas (camponeses, operários, desempregados, favelados, entre outros) são as mais afetadas, pois são marcadas historicamente pela exclusão social e a exploração. Embora a escola pública tenha se universalizado nas duas últimas décadas ainda não conseguiu inverter a situação de baixa ou pouca escolaridade destes sujeitos sociais. Essa situação é um fator de impedimento para o desenvolvimento da sociedade brasileira. Com os avanços das tecnologias da informação as categorias sociais que têm pouca ou baixa escolaridade ficam ainda mais excluídas das oportunidades que se apresentam. Por isso, consideramos que o serviço de internet dará uma grande contribuição ao assentamento, pois possibilitará condições de acesso à informação e as tecnologias educacionais que estão tão distantes e ajudará as crianças e jovens a terem melhores condições para viverem no assentamento Bela Vista.

  1. Considerações

As reivindicações que apresentamos através deste documento são de fundamental importância para a melhoria da qualidade de vida dos assentados do Assentamento Bela Vista e da população (assentada ou não) do seu entorno. Por isso, pedimos o empenho da Superintendência Regional do INCRA no Ceará para que nossas reivindicações sejam atendidas.


 

P.A. Bela Vista, Jaguaruana-CE, 14 de setembro de 2009.

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Francisco Evangelista de Carvalho

Presidente da Associação Cooperativista Nova Vida do Assentamento Bela Vista

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Maria Evangelina do Amaral Mesquita

Presidente da Associação dos Assentados do Assentamento Bela Vista

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sugestão Bibliográfica para o Colóquio de História do Brasil: Revoltas e Rebeliões no Império

A abaixo estão relacionados alguns textos e revistas disponíveis na Internet. Bom Proveito.
Balaiada: Ver o texto de maria de Lourdes Janoti "Balaiada: a construção da mémória histórica", disponível no site http://www.scielo.br/pdf/his/v24n1/a03v24n1.pdf;

Revolta dos Malês: ver o texto de Agnaldo Kupper "MALÊS: UMA PASSAGEM A SER CONCRETIZADA" disponível no site http://web.unifil.br/docs/revista_eletronica/terra_cultura/42/Terra%20e%20Cultura_42-7.pdf;

Insurreição Praeira: ver o texto de Marcus J. M. de Carvalho, Os nomes da Revolução: lideranças populares na Insurreição Praieira, Recife, 1848-1849, disponível no site http://www.scielo.br/pdf/rbh/v23n45/16526.pdf;
Cabanagem: ver o texto de Maria das Graças Gomes de Pina, CABANAGEM: «O VULCÃO DA ANARQUIA», disponível no site www.uefs.br/nep/labirintos/edicoes/01_2008/07_artigo_maria_da_graca_gomes_de_pina.pdf;
OUTROS FONTES DE INTERESSE:
1. JOSÉ CÂNDIDO DE MORAIS E SILVA – O “FAROL” atuação política nos debates e lutas do pós-Independência no Maranhão (1828-1831), de Elizabeth Sousa Abrantes, disponível no site http://www.outrostempos.uema.br/curso/poder/39.pdf;
2. Brasil: Revoltas Contra o Império, disponível no site http://www.tudoehistoria.com.br/pdfs/cap07-8oano.pdf;
3. Há diversas revistas que podem ser acessadas pela internet. Vejam algumas:
3.1. Revista de História da Biblioteca Nacional. Acesse o site http://www.revistadehistoria.com.br/ e faça o cadastro para ter acesso aos artigos.
3.2. A Revista de História da USP é excelente e tem seus números disponíveis na Internet desde 1997. acesse o site http://www.usp.br/revistadehistoria/;
3.3. Outra Revista de Bastante interesse é a Revista Eletrônica de História do Brasil, que também tem suas edições disponíveis desde 1997. Acesse o site http://www.rehb.ufjf.br/;
3.4. Para Acessar a FÊNIX - Revista de História e Estudos Culturais, veja o site http://www.revistafenix.pro.br/;
3.4. Revista História Hoje - Revista Eletrônica de História. Acesse o site www.anpuh.uepg.br/historia-hoje
3.5. Revista Varia História, do Departamento de História da UFMG. Site http://www.fafich.ufmg.br/varia/entrada
3.7. Klepsidra - Revista Virtual de História. Site http://www.klepsidra.net/novaklepsidra.html;
Em breve darei mais algumas dicas.
Francisco Antonio da Silva

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O que é pós-modernidade? Um diálogo com Agnes Heller e Ferenc Fehér

Francisco Antonio da Silva[1]

Um dos temas principais que ronda a arena das Ciências Sociais e Humanas é a questão da pós-modernidade. Teóricos da Sociologia, Antropologia, Ciência Política, Filosofia e História limitam seus esforços intelectuais a redefinirem o campo de atuação de suas respectivas áreas. Argumentam que as sociedades ocidentais não podem mais ser compreendidas a partir dos “velhos” referenciais teórico-metodológicos herdados do século XX. Argumentam também que a modernidade já não mais existe (daí insistirem na pós-modernidade enquanto discurso e ao mesmo tempo processo).
A pós-modernidade é um projeto político defendido com unhas e dentes (e também por garras muito afiadas) por muitos intelectuais dentro da Universidade e por profissionais em diversos campos de atuação, que se encarregam de fazer a propaganda desse novo discurso que se pretende hegemônico e, embora, fazendo uma cruzada contra a “grande narrativa” ou “narrativas totalizantes” pretende substituí-las, principalmente o marxismo.
Mas afinal o que é a pós-modernidade? Vamos responder a esta pergunta com a ajuda de dois teóricos que defendem este projeto: Agnes Heller e Ferenc Fehér. No livro A Condição Política Pós-Moderna[2] os autores explicitam os fundamentos e os pressupostos do projeto político e ideológico chamado de pós-modernidade. Para eles a pós-modernidade é caracterizada pela consciência generalizada da pos-historie ou o fim da história, cujo sentimento geral é o de “estar além”. Daí os diversos “pós” que recheiam a retórica dos pós-modernos; por isso vivemos em sociedades pós-industriais, nas quais o trabalho perdeu a centralidade e o conflito de classes não é mais importante para se compreender a dinâmica e o ordenamento da vida moderna.
Uma característica comum a esta corrente é a resignação. Para começar, embora seja forte o sentimento de “estar além”, a única a realidade a qual se apega é o presente, ou seja, as sociedades ocidentais contemporâneas. No entanto, para os pós-modernos a questão social jamais será resolvida, uma questão que norteou as ciências sociais e humanas em grande parte do século XIX até os anos setenta do século seguinte. A ciência social moderna sempre teve uma intenção prática importante, fosse ela explícita ou não. Para alguns cientistas sociais como Durkheim, por exemplo, a ciência social deveria contribuir para a compreensão dos problemas ou anomalias das sociedades capitalistas ocidentais e, a partir de uma intervenção racional ou planejada, ela seria responsável pela volta à normalidade do sistema. Outros como Karl Marx e F. Engels tentaram uma análise mais profunda das sociedades capitalistas, elaborando os fundamentos para a superação das mesmas. Estas duas posturas científicas demonstram claramente a natureza da ciência moderna, que sempre oscilou entre a reforma e a revolução. Ambas compreendiam a necessidade da ciência em resolver os problemas sociais ou pelo menos produzir um discurso capaz de orientar a elaboração de políticas universalistas que os enfrentassem numa perspectiva ampla.
Para Agnes Heller e Ferenc Fehér, como a questão social jamais será resolvida, não há necessidade de uma ciência que pretenda elaborar um “discurso totalizante”, pois as “grandes narrativas” denunciam as intenções de “políticas redentoras”, que defendem a inevitabilidade da dominação (seja de uma classe sobre outra ou do Estado sobre a sociedade). Negando-se a enfrentarem o problema da questão social como um dos temas das ciências sociais e humanas renegam a ciência moderna como fonte de intervenção humana na realidade. Ela restringe-se a uma dimensão limitada da vida, servindo ao entretenimento ou, no máximo, a vasculhar migalhas da realidade contemporânea.
A resignação é a condição básica para se viver em um tempo no qual o presente é contínuo. Assim, não é necessário cultivar a memória histórica[3] e nem a imaginação sociológica[4], já que não é mais necessário para compreendermos o mundo no qual vivemos ter uma visão totalizante da realidade. O que importa para os pós-modernos é o indivíduo estar satisfeito com sua vida, portanto, o que importa é a biografia e a história de vida[5]. Assim, as sociedades contemporâneas se tornarão satisfeitas quando os indivíduos se engajarem, tentando transformar a realidade da vida cotidiana a partir de seu ciclo de amizades, familiares, etc. A categoria insatisfação se assemelha à noção de fato social total maussiana[6]. No entanto, como os autores descartam qualquer perspectiva mais abrangente, desprezam o aprofundamento da análise desta questão, preferindo refletir a respeito da questão: como estar satisfeito numa sociedade insatisfeita?
As respostas a esta questão representam a máxima do esforço intelectual dos teóricos e discípulos da pós-modernidade. Compreendem as sociedades ocidentais contemporâneas como sendo “sociedades sem força”, portanto, sem dominação e hierarquia. Como não há dominação e hierarquia, ou seja, não há um “centro” organizador, os sujeitos individuais e coletivos têm a possibilidade de buscarem a satisfação sem se preocuparem com a transformação da sociedade. Buscando a satisfação pessoal, ou seja, buscando suprir suas necessidades e carências, os indivíduos têm a possibilidade de transformarem a contingência em destino. Transformam assim as limitações sociais e naturais (contingência) em realizações e autodeterminação (riqueza, fama, poder e reconhecimento, por um lado, e ampliação da democracia, por outro).
Enfim, o projeto político e ideológico conhecido como pós-modernidade não ultrapassa os limites da modernidade. Antes procuram nichos ou guetos da modernidade para neles se refugiarem, fugindo aos problemas das sociedades contemporâneas ocidentais, tentando criar sentimentos de satisfação em meio ao caos gerados pelas sociedades de mercado e de democracia liberal.
[1] Professor do Curso de História da Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos (FAFIDAM), da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
[2] HELLER, Agnes & FEHÉR, Ferenc. A Condição Política Pós-Moderna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
[3] Para Eric Hobsbawm uma das constatações mais importantes que o historiador pode observar a respeito do século XX é a perca da memória histórica, fazendo com que tenhamos a impressão de que vivemos num eterno presente. Assim, a relação passado, presente e futuro, torna-se fluída e sem sentido, pois o sujeito imergido no presente constante perde a noção da temporalidade e isso faz com que também se perca a capacidade de compreender a realidade da vida cotidiana de forma mais profunda (ver HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995).
[4] Para White Mills a imaginação sociológica é uma operação que possibilita ao sujeito uma compreensão mais profunda das sociedades contemporâneas. O conhecimento do mundo a partir dos instrumentais oferecidos pelo senso comum nos fornece uma visão limitada do mundo, pois a referência utilizada é o contato direto que os indivíduos têm com a realidade a partir das relações familiares, vizinhança, trabalho, escola, etc. Assim, a característica deste conhecimento é a biografia. Conhecemos apenas aquilo que o meio permite conhecer e a nossa história individual é capaz de nos oferecer enquanto referencial. Para que possamos compreender melhor o mundo é necessário situarmos nossa história individual no contexto da história contemporânea, pois só assim poderemos compreender de forma mais profunda nossas vidas e o mundo que nos envolve (ver MILLS, White. A Imaginação Sociológica. )
[5] Para Agnes Heller e Ferenc Fehér a insatisfação é um dos eixos dinâmicos das sociedades contemporâneas ocidentais, fazendo com que elas progridam e se desenvolvam, pois a insatisfação faz com que os indivíduos estejam sempre tentando suprir suas carências e necessidades, lutando por melhores condições de vida ou por fama, reconhecimento, poder e riqueza.
[6] Marcel Mauss ampliando os estudos do tio, Emile Durkheim, desenvolve o conceito de fato social total para explicar aquelas realidades centrais da vida de um grupo social. No caso, Mauss elege a dádiva (o processo que envolve os atos de dar, receber e retribuir) como sendo a ação social elementar das sociedades simples ou tribais (CAILLÉ, Alain. Nem holismo nem individualismo metodológicos: Marcel Mauss e o paradigma da dádiva. In Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 13, nº 38, out./98). Para uma análise mais completa da questão (ver GODBOUT, Jacques T. & CAILLÉ, Allain. O Espírito da Dádiva. Traduzido por Patrice Charles F. X. Wuillaume. - Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1999).

Dominação e Hierarquia Estão Superadas nas Sociedades Capitalistas Ocidentais?

Francisco Antonio da Silva[1]

Segundo Agnes Heller e Ferenc Fehér as sociedades capitalistas ocidentais são “sociedades sem força”, nas quais dominação e hierarquia foram superadas[2]. Este é o argumento que os autores utilizam para definirem as sociedades contemporâneas ocidentais e ao mesmo tempo delimitarem o campo de atuação dos teóricos da pós-modernidade. Para eles o que levou os cientistas sociais a definirem tais sociedades enquanto totalidade foi a existência da dominação e da hierarquia e como estas não mais existem, tampouco há necessidade de abordagens e teorias totalizantes para a compreensão das mesmas.
Partidários de uma microfísica do poder[3] celebram a morte do Estado moderno, que era um centro (ou o principal) organizador, fazendo com que todos os campos sociais (político, econômico, cultural, educacional, etc.) oscilassem em torno de si, fazendo com que diversos modelos teóricos tomassem esse centro como alvo de suas análises, na tentativa de reformá-lo ou aboli-lo.
Para os pós-modernos este centro organizador da vida moderna não existe mais, portanto, não há igualmente necessidade de elaboração de grandes narrativas para explicar a vida contemporânea. Compreendem o estado e as sociedades contemporâneas na perspectiva do neoliberalismo[4], que entende que o Estado não tem mais o papel de organizar, mas sim regular as atividades dos sujeitos individuais e coletivos. Desta forma, o Leviatã hobesiano deixa de existir, delegando suas funções à sociedade civil, que no livre jogo do mercado elege as opções mais adequadas à satisfação das necessidades e carências.
Nesta abordagem não há dominação e hierarquia porque a sociedade civil finalmente conseguiu encarnar o espírito do mundo hegeliano e agora pode transformar as contingências em destino, ou seja, a humanidade conseguiu alcançar os meios para a autodeterminação e, portanto, ser livre. Desta forma, uma conseqüência lógica deste discurso é a decretação do “fim da história”. O indivíduo tipo ideal desta nova realidade é o “consumidor”, o cidadão por excelência do pos-historie.
As lutas emancipatórias dos séculos XIX e XX não têm mais espaços nas sociedades pós-modernas porque não há mais contra quem lutar, nem tampouco há um centro organizador para reformar ou destruir. As lutas e reivindicações devem voltar para questões pontuais e limitadas. Não é mais preciso mobilizar todos os setores da sociedade, pois cada sujeito (individual ou coletivo) agindo em esferas particulares poderá transformar a sociedade. Este é cenário construído pelas correntes que se denominam pós-modernas, apregoando um sentimento de resignação coletiva que leva a aceitação do estado de coisas postas na atualidade.
[1] Professor do Curso de História da Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos (FAFIDAM), da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
[2] HELLER, Agnes & FEHÉR, Ferenc. A Condição Política Pós-Moderna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
[3] Ver a respeito FOUCAULT, Michel. A Microfísica do Poder. Rio de Janeiro, Graal, 1988.

[4] Para os defensores do neoliberalismo o Estado deve ser mínimo, ou seja, não pode ser intervencionista. A lógica do mercado e do capital financeiro deve sobrepor-se aos interesses sociais e às políticas públicas que visem o desenvolvimento social. A sociedade civil deve assumir funções que antes cabiam ao poder público e, desta forma, o Estado passa de “organizador” a “regulador”. Por isso, os pós-modernos afirmam que não existem mais dominação e hierarquia nas sociedades contemporâneas ocidentais.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

TEXTOS DE HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

Os textos da Disciplina de Historiografia Brasileira do semestre 2008.2, que se encontram disponíveis na internet são os seguintes:

Texto IV: Nação e Civilização nos Trópicos: o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro e o projeto de uma história nacional, de Manoel Luis Lima Salgado Guimarães, disponível em http://www.cpdoc.fgv.br/revista/asp/dsp_edicao.asp?cd_edi=5

Texto V: Em nome do pai, mas não do patriarca: ensaio sobre os limites da imparcialidade na obra de Varnhagen, de Temístocles César, disponível no site http://www.scielo.br/pdf/his/v24n2/a09v24n2.pdf

Texto VIII: Historiografia e História Cultural: representações de Capistrano de Abreu na historiografia brasileira – por Ítala Byanca Morais da Silva. Disponível no site http://www.historiaemreflexao.ufgd.edu.br/A8/HISTORIOGRAFIA%20E%20HISTORIA%20CULTURAL.pdf?PHPSESSID=04b51e32f48f1daec2247d12af303961

Texto IX: Nota Historiográfica sobre aSociedade Colonial, de Rodrigo Elias Caetano Gomes. Disponível no site http://www.klepsidra.net/klepsidra17/colonial.htm

Texto XII: José Honório Rodrigues: os clássicos e uma possível identidade historiográfica brasileira (décadas de 1940-80), de André de Lemos Freixo. Disponível no site www.encontro2008.rj.anpuh.org/.../1212971758_ARQUIVO_JoseHonorioRodrigues

Texto XIII: Retomando a questão do início da historiografia econômica no Brasil, Tamás Szmrecsányi. In nova Economia_Belo Horizonte_14 (1)_11-37_janeiro-abril de 2004. pp. 11-37. Disponível no site http://www.face.ufmg.br/novaeconomia/sumarios/v14n1/Szmrecsanyi.pdf

Texto XIV: Economia e Política na Historiografia Brasileira, de Sônia Regina de Mendonça. Disponível no site http://www.historia.uff.br/estadoepoder/files/art01_mendonca_economiaepolitica.pdf

Texto XVII: Os Estudos Regionais na historiografia Brasileira, de Marcos Lobato Martins, disponível no site www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos//2008/03/historia-e-estudos-regionais.pdf

Texto XVIII: A PRODUÇÃO HISTORIOGRÁFICA BRASILEIRA SOBRE O MOVIMENTO OPERÁRIO FORA DO EIXO RIO- SÃO PAULO, de Sílvia Regina Ferraz Petersen. Disponível no site sindicalismo.pessoal.bridge.com.br/SilviaPetersen2005.rtf

Atenciosamente
Francisco Antonio da Silva,
Prof. da Disciplina Histotiografia Brasileira

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Historiografia Brasileira

O texto para a próxima aula (15/01/2009) "O Brasil nos relatos de viajantes ingleses do século XVIII: produção de discursos sobre o Novo Mundo" encontra-se disponível no site http://www.scielo.br/pdf/rbh/v28n55/a07v28n55.pdf.

Atenciosamente
Francisco Antonio da Silva

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

COMUNICADO

Aos Alunos Matriculados nas Disciplinas de Historiografia Brasileira e História do Brasil II
Por conta da realização da I Mostra de Cinema Africano da FAFIDAM os textos que seriam trabalhados nas aulas de quinta-feira (Historiografia Brasileira) e Sexta-feira (História do Brasil II) da semana em curso ficarão para a próxima semana.
São eles: Historiografia Brasileira- a Identidade do Historiador, de Francisco Falcon, disponível na Xerox da Maria ou no site http://www.cpdoc.fgv.br/revista/arq/183.pdf.
História do Brasil II: As Independências do Brasil: ponderações teóricas em perspectiva historiográfica, dé Jurandir Malerba; Disponível na Xerox da Maria ou no site http://www.scielo.br/pdf/his/v24n1/a05v24n1.pdf.
Atenciosamente
Prof. Francisco Antonio

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

OH, GILBERTO!

Por Francisco Antonio da Silva[1]
O que fez Gilberto Freire? Talvez, a maior história do Brasil senhorial. Talvez a falta do y não identifique o autor. É o mesmo de Casa-Grande & Senzala. Não é problema ter, ele falado, dos senhores escravocratas. Talvez, qualquer brasileiro inteligente ou, no mínimo, interessado em saber o que foi o Brasil de 1500 até nossos dias deveria ler Gilberto Freyre, de Casa-Grande e Senzala.
Brasileiros, somos nós. Infelizmente, a forma em que deu o municipalismo hoje, tenha atrapalhado especialistas de todas as áreas do conhecimento. Alguns dizem que somos o país do FUTURO. Nós somos o Brasil; mal compreendido por todos (até por nossos maiores gênios).
O que podemos fazer (sem interrogação). Não pergunto aos brasileiros (chega de regionalismos), nós somos um povo universal (chega de eugenia). Ela serve para os senhores de todos os tipos (nessa tipologia não excluo os que se dizem socialistas e comunistas). Infelizmente, foi uma descoberta incrível: o falo serviria como instrumento de domínio. Que descoberta! Infelizmente é preciso reavaliar tal tese: não faz mais sentido tal teoria. O duro é questionar a prática. Eis o dilema da sociedade ocidental.
[1] Francisco Antonio da Silva é graduado em História pela Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos, Universidade Estadual do Ceará. Mestre em Sociologia pela UFC.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A NOVA HISTORIA SEGUNDO CAPISTRANO DE ABREU

Fredivânia da C. Nogueira, Graduando em História

Francisco Antonio da Silva, Professor do Curso de História da FAFIDAM

RESUMO: A obra de Capistrano foi de grande importância para a Historiografia brasileira, apesar de não fazer uma grande mudança em relação à obra de Varnhagem, do qual sempre teceu criticas devido sua forma de escrita fria e de grande exaltação portuguesa. Esta constante é notável no capítulo I de sua obra Capítulos de História Colonial que se intitula Antecedentes Indígenas que embora possua esse nome pouco fala dos indígenas.

INTRODUÇÃO

Capistrano de Abreu nasceu na província do Ceara em 1853, mais precisamente em Colominjuba. Ali estudou o primário e depois continuou os estudos em Pernambuco, onde fez curso de inglês e francês, porem não cursou o ensino superior , na Faculdade de Direito de Recife.

Em 1875 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde conseguiu o emprego na Livraria Garnier e depois conquistou uma vaga de professor no Colégio Aquino , onde dava aulas de inglês e francês. Em 1879 fez concurso para integrar o quadro de funcionários da Biblioteca Nacional, onde passa a trabalhar ao mesmo tempo em na imprensa como redator da Gazeta de Noticias, dedicava-se a textos de critica literária e Historia da Literatura.

Em 1883 , concorre a cátedra de Geografia e Historia do Brasil , do Imperial Colégio D. Pedro II, Que já tinha sido ocupada por Gonçalves Dias. Em 1887 ingressou no IHGB, mas continuou lecionando ate 1889, quando houve uma reforma de ensino que acabou com sua cadeira. Daí em diante passou a viver do trabalho jornalístico e da pesquisa histórica.


Capistrano e a Escrita da Nova História

Capistrano era um autodidata que muito se interessava pelas relações entre Historia e Geografia, ate porque ele sempre teve convicção de que a sociedade era marcada por agentes culturais e geográficos. Tal visão e bastante visível na composição dos Capítulos de Historia Colonial , obra escrita mediante um sonho de escrever uma nova Historia do Brasil, uma forma diferente das que já haviam sido feitas, principalmente a obra de Francisco Adolfo Varnhagem, Historia Geral do Brasil , do qual chegou ate a fazer uma reedição .

Para Capistrano Varnhagem tinha um estilo frio e insensível de escrever, apesar da admiração que tinha pelo historiador , não escondia que detestava seu texto, ate porque seguia uma cronologia de fatos oficiais do qual Capistrano sempre foi contra, O caráter oficial de Varnhagem, desejava manter a imagem de excelência do império português , louvando e defendendo a colonização.
Varnhagem , também não seguia a linha de Von Martius , o naturalista alemão que, em 1884 ganhou o concurso realizado pelo IHGB a fim de eleger a maneira de "Como se deve escrever a historia do Brasil" . Von Martius propôs que se levasse em conta a fusão das três raças (branco português, índio e negro africano ) . Varnhagem sempre falou do índio de forma pejorativa e excludente, e dos negros nem ao menos falava.

Capistrano reconhecia a importância da obra de Varnhagem , porém detestava sua forma fria e insensível de falar da vida social, as diferenças regionais e do povo , do qual Capistrano tinha grande preocupação pela ausência em suas obras.

A Visão Indígena de Capistrano

Mesmo com tanta preocupação de Capistrano em relação a escrita de Varnhagem , pela visão social e popular que era lhe era ausente, Capistrano faz em seu primeiro capítulo Antecedentes indígenas , em que o autor demonstra seu amor pela geografia ao descrever os limites territoriais, toda a flora , fauna, relevo e clima do Brasil, detalhando os oceanos que o rodeiam, bacias e rios , principalmente o rio São Francisco que para ele é de grande importância histórica detalhando todo o seu percurso. Capistrano também relata as regiões com freqüência de chuvas e as que passam por períodos de secas. Enfim Capistrano faz uma viagem por todo o território brasileiro ressaltando cada geográfico, deixando apenas as duas ultimas paginas para realmente falar dos índios suas crenças, costumes e rituais.

A principio fala da colaboração que o índio deu para evolução social, da prática da agricultura, da caça e da pesca, assim como mostra a que sexo cada atividade era destinada. Capistrano também fala sobre as guerras existentes entre tribos e as práticas efetuadas após o seu termino para vencedores e vencidos. Comenta também o tipo de habitação, a autoridade dos chefes (pagés), da espiritualidade, da observação da natureza,do artesanato, das lendas , das línguas faladas pelas diversas tribos que aqui podia se encontrar.E por fim discute se influência que o meio geográfico exerceu sobre os índios predispôs ou não a indolência do índio. E afirma:

"Indolente o indígena era , sem dúvida , mas também era capaz de grandes esforços, podia dar muito de si. O principal efeito dos fatores antropogeográficos foi dispensar a cooperação[...]A mesma ausência de cooperação, a mesma incapacidade de ação incorporada e inteligente, limitada apenas pela divisão do trabalho e suas conseqüências, parece terem os indígenas legado a seus sucessores."

Considerações finais

A intenção em destacar um capítulo apenas de tão vasta obra, não se justifica apenas pela facilidade de análise, mas por este ter de certa forma me chamado muito a atenção devido a disparidade entre o titulo e o assunto com que o autor o desenvolve.

Mesmo trazendo grandes inovações Capistrano ainda se remete a práticas que há muito tempo se utilizavam outros autores, como é o caso da descrição da natureza, algo que ele utiliza quase que do começo ao fim do capitulo I da obra que desejava marcar a nova escrita da história do Brasil. Sendo assim seria realmente essa a nova forma de se escrever a história do Brasil.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Sobre História

HOBSBAWM, Eric. O Presente como História. In: Sobre História. Trad. Cid Knipel Moreira. – São Paulo: Cia das Letras, 1998. pp. 243-255

Por Francisco Antonio da Silva,
Professor da Disciplina História Contemporânea III,
Curso de História da FAFIDAM/UECE

A preocupação como a história do tempo presente é o tema central deste texto do historiador inglês Eric Hobsbawm. Para ele, a afirmação de “que toda história é história contemporânea disfarçada” (p. 243), contém um pouco de verdade. No entanto, uma coisa é escrever a história da Antiguidade Clássica como um filho do século XX, e “outra coisa bem diferente é escrevermos a história do próprio tempo em que vivemos”.
Para refletir a respeito desta questão Hobsbawm reflete sobre três problemas que envolvem a produção historiográfica sobre o tempo presente: a) o problema da própria data de nascimento do historiador ou o problema das gerações; b) os problemas de como nossa própria perspectiva do passado pode mudar enquanto procedimento histórico; e c) o de como escapar das suposições da época partilhadas pela maioria.
Quanto ao primeiro problema é preciso considerar uma questão central: os marcos históricos e o consenso em torno deles. Isso supõe que uma experiência individual de vida também seja uma experiência coletiva, ou seja, que alguns fatos, embora não vivenciados diretamente, tornam-se referências para se pensar o presente na medida em que possibilita a construção de esquemas de pensamento e comportamento que acabam por servirem de referência para a grande maioria das sociedades humanas. Hobsbawm cita alguns desses marcos, como por exemplo, a Segunda Guerra Mundial, a Grande Depressão de 1929-33 e a Revolução Russa de 1917.
No caso da América Latina, podemos pensar na Revolução Cubana, por exemplo, que até os dias atuais continua irrigando as mentes dos intelectuais e dos políticos, orientando as ações e intervenções dos governos latino-americanos e dos Estados Unidos, que colocam a pequena ilha no centro de uma disputa ideológica.
É importante, como faz Hobsbawm, questionar o caráter destes eventos ou marcos. Faz-se necessário perceber até que ponto há semelhante consenso, em que medida ele é permanente, até que ponto está sujeito a mudança, erosão, transformação, como e por quê?
Os marcos ou o consenso sobre determinados eventos estão relacionados ao próprio tempo de vida do historiador, constituindo “o poleiro particular” a partir do qual o historiador sonda o mundo. Assim, “é inevitável que a experiência pessoal desses tempos modele a maneira como os vemos” e refletimos a respeito (p. 245).
Relacionado a esta questão há o problema das gerações. O poleiro particular de cada geração influencia na apreensão dos marcos históricos e na interpretação dos mesmos, além do mais quando as transformações se dão numa velocidade cada vez mais difícil de serem acompanhadas. Hobsbawm reconhece que a mudança nas gerações traz mudanças tanto na escrita quanto na prática historiográfica.
O segundo problema é uma inversão do primeiro e diz respeito ao efeito da passagem dos anos do século sobre a perspectiva do historiador, independentemente de sua idade. Ou seja, o desenrolar de um determinado período histórico, como o século XX, carrega em si uma certa estrutura ou sentido, que só poderá ser compreendido mais amplamente quando a mesma vem átona, num processo de médio e longo prazo. Para Hobsbawm, os eventos ocorridos entre os anos de 1989 e 1991 possibilitaram uma nova compreensão de todo o período anterior iniciado na década de 1970, ou mesmo nos anos 20 e 30. Isso porque a capacidade de previsão do historiador e outros profissionais como os economistas e cientistas políticos é bem menor do que a do período anterior à Segunda Guerra Mundial. Quando falha a capacidade de predição entra em jogo a capacidade de retrospecção, que possibilita ao historiador refletir melhor a respeito do tempo presente.
O terceiro problema afeta os historiadores de todas as gerações e está menos sujeito à rápida revisão à luz dos acontecimentos históricos: o padrão geral das idéias sobre o nosso tempo, que se fundamenta numa visão religiosa do mundo, na guerra entre o Bem e o Mal, Cristo e Anticristo. Até os anos 80 do século passado a guerra religiosa girou em torno do comunismo e capitalismo. Hoje os conflitos residem entre terroristas e defensores da liberdade e da democracia.
Para Hobsbawm, o “perigo das guerras das guerras religiosas é que continuamos a ver o mundo em termos de jogos de soma zero, de divisões binárias mutuamente incompatíveis, mesmo quando as guerras estão terminadas” (p. 253). Fugir a esta visão maniqueísta é grande desafio do historiador que escreve sobre o seu próprio tempo. Ele deve escapar das suposições partilhadas pela maioria. Para isso o historiador deve ser capaz de questionar as visões de mundo dominantes, que naturalizam a realidade e prendem a atenção do observador.
Enfim, o historiador deve ser capaz de ver o desenrolar dos fatos históricos a médio e longo prazos, aperfeiçoando a sua capacidade de retrospecção, análise e reflexão. Nesta perspectivas é necessário pensarmos mais atentamente as questões centrais que estão postas no século XXI, como por exemplo, a idéia generalizada de que não há alternativas ao capitalismo e a nova “guerra santa”, envolvendo ocidente e oriente, que se traduz na guerra contra o terror e a demonização do inimigo.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

A ESCRITA DA HISTÓRIA E A CRÔNICA HISTÓRICA


Jesus Soares Rebouças[i]
Francisco Antonio da Silva, Prof. do Curso de História

Resumo: A tentativa de se produzir história no século XVI ao XVIII foi marcada por uma produção de textos crônicos. Autores diversos narraram o Brasil com suas características de país colonizado, cada um com um olhar marcado pelo seu espaço social. Este artigo vem mostrar um pouco da produção dessa época.

Introdução

A tentativa de entender os passos da escrita da História é no mínimo curiosa e louvável aos olhos do historiador. Qualquer profissional, para exercer bem seu ofício deve no mínimo caminhar pelo histórico de sua profissão. Saber que a história nem sempre foi vista com bons olhos e não considerada desde sempre como ciência, ou seja, algo que teria pouco valor é tão importante quanto aprender a relativizar os comportamentos e as exigências de cada tempo. Como disse Certeau, "Certamente não existem considerações, por mais gerais que sejam, nem leituras, por mais longe que as estamos, capazes de apagar a particularidade do lugar de onde eu falo e do domínio por onde conduzo uma investigação".[ii]

Assim como cada escritor/historiador de hoje dispõe suas análises de um determinado lugar de fala, ligado a percepções escolhidas, cada escritor seja ele historiador ou não, também se colocam sobre determinado contexto a narrá-lo de forma associada a seu espaço social.
Anterior à criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838), centro de referência no país da produção historiográfica autores europeus e brasileiros contaram suas experiências através de narrativas diversas, as quais contribuíram fundamentalmente para as pesquisas historiográficas posteriores.
Mesmo não sendo historiadores de formação, assim como não eram os escritores do IHGB, os cronistas contribuíram de forma inegável para se perceber o modo e as tentativas de se escrever história do Brasil do século XVI ao XVIII. Contudo, estes escritos perpassam épocas e sua importância é relevante para todos que desejam ou desejaram escrever parte da história do nosso país.

Uma História de Crônicas
Desde a descoberta das terras brasílicas estas despertaram a curiosidade de muitos escritores de sua época, autores se debruçaram sobre as mesmas e construíram narrativas que serviram para estudos futuros. Os primeiros escritos sobre as terras do Brasil são narrações construídas através de relatos e observações de escritores sobre o novo mundo descoberto. Textos construídos sob críticas etnocêntricas com a clareza de estudiosos acostumados com a vida culta e assustado com o comportamento do Novo Mundo.
Um exemplo de texto clássico relativo ao descobrimento das terras de Santa Cruz (agora Brasil) é a carta de Pero Vás de Caminha. De acordo com Francisco Iglésias esses primeiros escritos que relatam o contexto do Brasil desde o século XVI até o século XVIII são crônicas, narrativas que tinham uma pretensão de ser história, porém não passavam de relatos, textos produzidos através de fontes orais ou outras leituras.
Partes destes autores, cronistas, não conheciam o ambiente que narravam como colocou Iglésias. O primeiro autor que se destacou neste tipo de narrativa foi Pêro Gândavo (1573), o qual escreveu A História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos de Brasil. “Sua obra é pouco historiográfica, parecendo mais um texto de propaganda da nova terra, louvando-lhe as vantagens para atrair imigrantes”.[iii] Apesar de ter se colocado como iniciante na história local, sua obra tem mais crônica do que de história.
Outros escritos que coloco em destaque, citado por Iglésias é o de frei Vicente do Salvador, que escreveu História do Brasil. Segundo o autor sua obra é de uma escrita suave e de leitura agradável, não peca pela retórica puxada marcada na escrita de outros autores de seu tempo. É um exemplo de um conhecimento escritural dentro da tradição oral. “Frei Vicente era homem culto, versado em direito, teologia, história, filosofia e literatura. Tinha amplos estudos, feitos no Brasil e em Portugal”.[iv]
Vale ressaltar seu conceito de história e sua perspectiva de narração. Ao mesmo tempo em que denuncia as falhas da colonização, com uma possível simpatia pelo indígena, questiona o comodismo do colonizador que não ultrapassa o litoral.
Outros autores com suas obras ganham destaque, porém não cabe aqui colocá-los nominalmente e suas obras, isso já tem número considerável no texto do Iglésias, Historiadores do Brasil: capítulos da historiografia brasileira. Afirma o autor que até 1838, os textos destes autores ainda permanecem dentro da perspectiva de crônicas e não com caráter historiográfico. O que não se pode deixar de revelar é a extrema importância dessas obras para o próprio conhecimento da sociedade brasileira no seu período colonial, seja numa versão social primariamente, ou apenas política, ou de ambas.
O século XIX marca um novo parâmetro na escrita, para Iglésias é o período:
“conhecido como o século da história. (...) Revelam-se documentos até ai desconhecidos de todos, ao mesmo tempo que se aperfeiçoa o modo de tratá-los e aproveitá-los. (...) Certas noções adquirem técnicas eficazes, criam uma escola de pesquisa, com historiografia fundada em documentos, comprovação de quanto se afirma e única base para especulações explicativas e interpretativas.[v]

Mas essas novidades no campo da produção histórica no século XIX não é o enfoque deste artigo, aqui ressaltei apenas a produção de crônicas, estas numa tentativa de se produzir história.

Considerações Finais
Apesar de os ditos cronistas não se destacarem no campo historiográfico, seus textos são de grande importância para se perceber a realidade, seja ela parcial ou não, do nosso país nos séculos de seus escritos.
E se não contribuíram detidamente para se estabelecer um modelo historiográfico, uma maneira de se escrever a história do Brasil, no entanto, todas as crônicas vão servir aos escritores posteriores para se estipular traços do Brasil e de seu período, como coloca Igléisas numa fala de Américo Jacobina Lacombe:

Os nomes (...) pertencem a uma fase ultrapassada na historiografia brasileira. Contribuíram valiosamente para a elaboração da história, são hoje utilizados como fontes de informação, mas não suficientes para a compreensão dos fenômenos. São mais objetos da história do que historiadores.[vi]

Desse modo, porque julgar esses homens como não historiadores somente e deixar de lado seu valor, se temos histórias bem considerados no século XIX escritas por homens que academicamente não eram historiadores de formação, assim como os intelectuais do IHGB? A grande questão a ser ressaltada é a contribuição dos homens para com a história, e se em todo caso não produziram textos com caráter de história, fizeram com certeza, e fazem até hoje história.

Notas

[i] Graduando do Curso de História da FAFIDAM, Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos, anexo da Universidade Estadual do Ceará – UECE.
[ii] DE CERTEAU, Michel. A operação histórica, p.19.
[iii] IGLÉSIAS, Francisco. Os Historiadores do Brasil: capítulos de historiografia brasileira, p.27.
[iv] IGLÉSIAS, Francisco. Os Historiadores do Brasil: capítulos de historiografia brasileira, p.29.
[v] IGLÉSIAS, Francisco. Os Historiadores do Brasil: capítulos de historiografia brasileira, p.40-41.
[vi] IGLÉSIAS, Francisco. Historiadores do Brasil: capítulos da historiografia brasileira, p.54.

Referências
DE CERTEAU, Michel. A Operação Histórica. In LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre (orgs). História: novos problemas. 4ª Ed. Trad.: Theo Santiago. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.

IGLÉSIAS, Francisco. Os historiadores do Brasil: capítulos de historiografia brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Belo Horizonte, MG: UFMG, IPEA, 2000.

Os Precursores da Historiografia Brasileira


Luzimar Pinheiro da Costa de Sousa
História, UECE-FAFIDAM
Historiografia Brasileira, III semestre.
Francisco Antonio da Silva
Prof. do Curso de História da FAFIDAM/UECE

Introdução

Francisco Iglésias, procura mostrar como os cronistas do período colonial contribuíram para a historiografia brasileira, se atendo a um determinado período da nossa história, de 1500 a 1838, e de determinadas obras e acontecimentos decorrentes do período. Analisou o papel desempenhado pelos cronistas, criticando-os quando necessário, mas reconhecendo as contribuições que eles deixaram para a produção historiográfica brasileira.

Autores e Obras

Com a chegada dos portugueses ao Brasil, não se inicia somente um período de colonização, o espaço também deu lugar ao aparecimento de obras que o autor analisa procurando identificar nos autores dessas obras aqueles que se elegeram no gênero de historiador. O autor inicia lamentando a perda da obra, História da Província de Santa Cruz, daquele que para ele iniciou a profissão de historiador, o cronista, historiador e escritor português João de Barros, que veio para o Brasil por ter sido contemplado com uma capitania. Como lamenta também a perda de outros escritos, que para o autor, pela falta de censura se intitularam de História do Brasil.
O primeiro a ser referido por ele como historiador no período quinhentista, é o português Pero de Magalhães Gândavo, que escreveu em 1573 e publicou em 1576, a História da Província de Santa Cruz. O autor faz uma severa crítica a Gândavo, por ele não ter conhecido bem o país e sua obra ter sido pouco historiográfica, e que para ele se constituirá mas num texto de propaganda da nova terra, que não tinha características propriamente didáticas, mas sim uma crônica descritiva da natureza e dos homens. Mas outros portugueses escreveram sobre a nova terra, como os jesuítas que merecem destaque por suas obras, por exemplos: Fernão Cardim, que viveu quarenta anos no Brasil e por esse motivo tinha mais conhecimento para escrever um conhecimento sobre o país e Gabriel Soares de Sousa que residiu no país por dezessete anos, português, escreveu notável texto, que permaneceu inédito, só sendo publicado no século XIX, o que lhe restringiu a eficácia. Apesar de não ser uma reconstituição histórica e o autor compará-la com a de Gândavo, pode-se reconhecer hoje que sua obra foi o melhor que se produziu sobre a nova terra, no primeiro século da colonização.
O período quinhentista foi caracterizado por muitas obras, que não tiveram muito labor historiográfico, se tratando de crônicas descritivas referentes a nova terra, das quais eram produzidas pelas concepções de vida de seus autores, que não tiveram a preocupação em construir um conhecimento histórico daquele momento vivido. Podemos até mesmo levar em consideração que se tratavam de portugueses que já tinham sua nação estabelecida, portanto descreviam o espaço que “pertencia” a Portugal.
Já no inicio dos setecentos, pode-se constatar a primeira História do Brasil escrita por um brasileiro, à obra de Frei Vicente do Salvador, concluída em 1627. Um homem erudito que possuía uma gama de conhecimentos , baiano que teve amplos estudos feitos no Brasil e em Portugal. Para o autor Frei Vicente é um marco significativo, além do pioneirismo, foi original na composição de sua obra, desafiando o estilo árido e convencional da época, como também escrevendo de forma leve e agradável, num tom revelador de gosto literário. Seu livro é simples e direto, se contrapondo com a história da época, que em Portugal era tratada com retórica e eloqüência. Seu estilo de narrador pitoresco, talvez tenha sido obstáculo para sua publicação, pois o português Severim de Faria por ter o culto da linguagem pura e solene, não promoveu a publicação da História do Brasil (esta que lhe era dedicada), nem da História da Custódia do Brasil (que afinal se perdeu).
Iglesias faz referência a crítica feita por Capistrano de Abreu que chegou a falar do livro do Frei, intitulando-o de Histórias do Brasil. Mas, para Iglesias o Frei faz descrições da realidade e trata da trajetória dos primeiros cento e vinte e cinco anos, em cinco livros, dos quais muitas partes dos textos se perderam, escrevendo sobre a história de seus dias, em boa prática da historiografia de todos os tempos, atendo-se a sua problemática, que é o descobrimento da terra até a tentativa de conquista da Bahia pelos holandeses, pode-se perceber em sua obra o que foram os governos e suas ações. Algo de grande relevância é o seu conceito de história, que para Frei Vicente: “é de seu ensinamento para que os estudiosos enfrentem as situações: os livros históricos são luz da verdade, vida da memória e mestres da vida”,(IGLESIAS, cit., p.30), escrito no começo de sua obra, é um conceito que mais se parece com um alerta para que os estudiosos reconheçam o verdadeiro sentido de se fazer história e de como esse conhecimento pode ser fundamental para entendermos muitas coisas que estão a nossa volta e fazem parte da nossa vida, da nossa identidade.
Para Iglesias o Frei percebe o momento reconhecendo o essencial do processo: luta entre índios e colonizador, simpatizando com os índios, aponta os defeitos da colonização, considera superficialmente a condição do negro, denuncia a falta de iniciativa do português que só fixa no litoral, sem se embrenhar pelo interior e critica a exploração do país pelos portugueses que não pensam na criação de riquezas para o Brasil. Para o autor já se percebe um “nacionalismo” ainda que tímido no Frei Vicente, mas que já pode ser considerado para a historiografia brasileira.
O Frei Venâncio Willek, biografo do historiador Frei Vicente, apontou em 1975, um dos possíveis motivos para a não publicação do livro do Frei, pois para Venâncio ele seria o primeiro censor do português e o primeiro a fazer crítica ao colonizador.
Iglesias reconhece na fala de Manoel Bonfim, em O Brasil na História, em 1931, a perda na falta de edição imediata da obra de Frei Vicente, pois segundo Manoel Bonfim “serviria de modelo”, para outros autores reconhecer e divulgar os problemas locais e seus propulsores. O autor faz também uma comparação da obra do Frei com as de certos cronistas, como pero Vaz e Gândavo e até mesmo de nossos dias, diferentemente de Frei Vicente, são ufanistas só no sentido de elevar as belezas da terra dentro de suas concepções. A obra permaneceu inédita até 1886, quando Capistrano de Abreu a apresentou no Diário Oficial, com algumas partes ou livros editadas, sendo publicadas integralmente em 1888 pela Biblioteca Nacional em seus anais.
Iglésias reconhece a importância e limitações da obra do Frei, que mesmo não se tratando ainda de uma trajetória brasileira em 1627, é um baiano admirável, revelando um historiador com a lucidez de sua época, da sua terra e da função que se propôs a escrever e escreveu.
No mesmo período surgem outras obras, sem aspectos particulares da colonização, como Diálogo das grandezas do Brasil, de Ambrósio Fernandes Brandão de 1618, que não era história do Brasil, mas sim fonte notável de poder informativo, que também teve edição limitada.
Discorrendo sobre o século XVIII, o autor nos faz perceber que a situação não alterou fundamentalmente, continuou a elaboração de obras históricas com aspectos particulares, sem abranger o plano global. Obras que remontam genealogias e conquistas, como por exemplo; Memórias da Capitania de São Vicente, de 1797, do Frei paulista Gaspar da Madre de Deus, quando o movimento entradista terminara. Acompanhando seu tempo o autor esclarece a falta de tentativa de estudo geral, já que não se tinha consciência de Brasil, naquela época, mas de áreas brasileiras, o que explica o desconhecimento de uma parte relativa à outra ou outras. O autor critica a restrição da divulgação dessas obras, que atingiam um numero mínimo de leitores.
No mesmo século, escreve-se e publica, a História da América portuguesa, de Sebastião Rocha Pita, em 1730, que abrange o ano de mil e quinhentos até mil e setecentos e vinte e quatro. Rocha Pita era baiano e teve muita importância social e política, versado em línguas, mitologia, história e literatura clássica, usufruiu bastante de seus conhecimentos em seus escritos. Iglésias o compara a seu antecessor frei Vicente que era simples e coloquial, enquanto, Pita era oratório, afetado, solene. Apesar de reconhecer sua capacidade de trabalho, o autor o considera insensato e sua falta de objetividade perdeu o autor. Pita escreveu sobre a trajetória nativa dos primeiros anos até a vinda dos holandeses a sua Bahia, da exterioridade política, falando de seus governos, suas lutas e vitórias, de todo tipo de rebelião, mas seu conservadorismo e reacionarismo não lhe permitiram escrever uma História do Brasil, pois lhe era favorável à situação, escrevendo a Historia da América Portuguesa, fato esse que podemos perceber em muitos outros autores. Assim como reconhece José Honório Rodrigues na primeira parte de sua História da História do Brasil em 1979, que Rocha Pita era partidário da ordem estabelecida, considerando-o antigentio, discriminatório e preconceituoso. Rocha Pita é bastante censurado por outros autores, mas Iglésias reconhece que seu livro tem importância histórica e como empreendimento deve ser citado e estudado. Para o autor podemos ainda considerá-lo como representante da historiografia brasileira oficial conservadora por esse ter sido um modelo bastante cultivado na historiografia brasileira, que se baseia na linha dos governos, na cronologia das administrações, do autoritarismo e negação de qualquer direito popular.
A obra de 1730, vem sendo sempre julgada, o que é natural pois este é o momento da historiografia brasileira. Contudo a obra de Rocha Pita não foi o principal livro do período, mas a de Antonil. André João Antonil era o nome com o qual se apresentou João Antônio Andreoni em Cultura e Opulência do Brasil por suas drogas e minas, em 1711. Andreoni era jesuíta e veio cedo para o Brasil. Andreoni traz um novo viés para historiografia do século XVIII, o econômico. Segundo Iglésias escreve com profundidade e erudição sobre a realidade econômica da época, observando os modos de produção, as tecnologias usadas, as condições de trabalho, as produções, fornecendo números das atividades. Ateve-se também ao problema social e político, era crítico e superou o seu tempo e sua capacidade de análise econômica da época, fez dele um autor de história econômica. O livro de Andreoni causou muito impacto no governo da época que mandou recolher e proibiu o livro, o que causou a perda de alguns exemplares, mesmo assim não impediu que a obra se propagasse e fosse uma das fontes mais usadas de todo o período colonial, tornando-se clássicas, o que confirma a importância e contribuição de seus escritos para o autor.
Outro nome de destaque do Setecentos é ode Cláudio Manoel da Costa, com outro estilo o da poesia, que em 1768 editou em Coimbra seu primeiro livro, intitulado de Obras, e escreveu um poema épico, Vila Rica, datada de 1773, inédito até 1839. Vila Rica é obra literária com fundamento histórico, pois o poema trata da criação da Vila em 1711, e suas fontes são obtidas pelo próprio autor do conhecimento que tinha da região e pelas relações pessoais com outros cultores da história de então.
O século XVIII, é marcado pela distinção de gêneros, me refiro agora aos anais, que foram uma espécie de arrolamento de quanto sucedeu em certa área. Bernardo Pereira de Berredo publica em Lisboa em 1749, um longo e paciente texto, Anais históricos do Estado do Maranhão. Segundo o autor é uma crônica pormenorizada da vida política, religiosa e militar, onde o econômico e o social são de quase todo ausentes, o seja mais uma forma de se divulgar a ordem vigente. È bastante criticada pelo autor, pois sua linguagem é afetada, o texto comprometido pela prolixidade e matéria substanciosa.
Esses anais eram recomendados pela administração portuguesa a suas autoridades no Brasil, era uma maneira da mesma manter-se informada. Os documentos dessa espécie têm muito valor para a história, pelo muito que informam, alguns segundo Iglésias atingem mesmo o nível da historiografia, fazendo a reconstituição e análise de períodos e às vezes até retrospectos históricos.
Para Iglésias o mais notável de todos é o de José João Texeira, Instrução para o povo da capitania de Minas Gerais, que é citado como paradigma. José João escreveu com sabedoria os acontecimentos de seu tempo. Segundo Iglésias sua análise ainda não foi superada. Seu manuscrito faz uma reconstituição histórica preciosa, pela lucidez do autor e pelo cargo ocupado que lhe permitiu conhecimentos do quadro em sua plenitude.
Agora é a vez do século XIX, o século das ciências, que com a constituição sistemática das chamadas disciplinas auxiliares da história renovou e enriqueceu fundamentalmente a elaboração do conhecimento histórico na Europa, dando bases para rigor e êxito na pesquisa e trazendo também técnicas que aprimoram e garantem ao historiador cada vez mais segurança. Revelando novos modos de se recuperar, aproveitar e trabalhar documentos. Podemos perceber que Iglésias ultrapassou o período estipulado por ele, para melhor explicar os rumos que foram tomando a produção do conhecimento histórico e as crises e correntes que permearam nessa produção.É como ele mesmo esclarece essas referências visaram apenas explicar o quadro renovador do século XIX, na historiografia do mundo europeu, ao qual o Brasil se vincula. Isso repercutiu no Brasil, ocorrendo à criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1838 e a edição das obras de Francisco Adolfo de Varnhagem, que foram marcos na produção nacional desbancando a produção nativa de antes.
Outra obra que é bastante destacada pelo autor é a de Luis dos Santos Vilhena, Recopilações de Notícias Soteropolitanas e brasílicas, em 20 Cartas, que levou grande parte do século XIX para ser elaborada. Iglésias percebe em Vilhena, o seu censo crítico, a maneira como ele vai descrevendo outras áreas, a capacidade de captar a sociedade em mudança. Apesar de não ser historiográfica ainda é bom material para produzir.O autor foi além de seu tempo ao perceber e analisar o presente vivido e as possíveis mudanças.
Um dos primeiros trabalhos a ser apontado pelo autor como de autêntica historiografia é a monografia de história econômica de Diogo Ribeiro de Vasconcelos, Minas e Quintos do Ouro, que para ele pode ser apresentada como fundadora da historiografia financeira. Diogo escreve sobre o regime tributário colonial e sua obra serve de pesquisa, informação, crítica, teorização desenvolvida e para entender a capitania e o destino do ouro no século XVIII. Sua obra também é merecedora de críticas, pois o autor é condescendente com o poder contributivo e seus feitos.
Para o autor a primeira história do Brasil verdadeiramente monumental , é a do historiador inglês Robert Sothey, que editou em 1810 e 1819 a sua History of Brasil. Robert apontou em sua obra os defeitos da colonização portuguesa, prevendo até mesmo sua emancipação, compreendeu bem o período identificando e apreendendo a trajetória brasileira em seus diversos aspectos e rejeitou as práticas espoliativas. Iglésias não deixa de enaltecer o fator diferenciador do autor, a preocupação estrangeira por nossa terra e a qualidade de seus escritos.
Não podemos deixar de enaltecer grandes autores como Capistrano de Abreu, que se preocupou em recuperar e publicar obras, que até então permaneciam inéditas, como também José Feliciano, Taunay, Alice P. Canabrava, André Mansuy, José Antônio Gonçalves de Melo Neto, Varnhagem, Brás do Amaral,Caio Prado Júnior, entre outros.

Considerações Finais

Segundo Iglésias, o século XIX é marcado por idéias as mais variantes, que foi palco por um lado de obras fragmentadas, escritas sobre aspectos do país, datas ou épocas e eventos, por outro, alguns autores ateve-se à pesquisa e produziu algo de valioso em seus livros. Nos escritos antecedentes as mudanças ocorridas na produção do conhecimento histórico, a maior parte dos autores transcrevia documentos ou narravam certas trajetórias, com uma visão desarticulada do processo natural. Autores com pouca expressão historiográfica, desempenhavam mais o papel de cronistas do que de historiadores.
Em sua análise Iglésias percebe que o período foi caracterizado por crônicas e que nenhuma alcançou a verdadeira historiografia. Para ele alguns se distinguiram como pesquisadores, outros pelo trabalho, abriu caminho para a história regional. Alguns foram pobres até mesmo como cronistas. O autor critica ainda a ausência de um esquema da História do Brasil, mas reconhece a contribuição desses cronistas para a elaboração da historiografia brasileira, que atualmente são usados como fonte de informação, embora não apresente suficiente compreensão dos fatos.
Devemos levar em consideração que nesse período as bases para se elaborar um conhecimento histórico ainda não estavam constituídas como atualmente e que esses cronistas fizeram parte do processo, talvez eles nem tivessem essa preocupação em ser historiadores, já que essa profissão passa por crises até mesmo em nossos dias, mas sim em narrar o que lhes era significativo, suas concepções de vida, contar sua história, deixar sua marca na sociedade.



Referências Bibliográficas

IGLESIAS, Francisco. Historiadores do Brasil, Primeiro Momento:1500-1838. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 2000.









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O IHGB E A PRODUCÃO HISTORIOGRAFICA BRASILEIRA.[1]

Jucelio Regis da Costa[2].
Francisco Antonio da Silva, Professor do Curso de História (FAFIDAM/UECE)


O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foi criado em 1838 durante o período Regencial, tomando como referência uma produção que pudesse conter um caráter realmente historiográfico. Francisco Iglesias afirma que a criação do Instituto trouxe o fim para a época que lhe antecedeu, como também revelou o inicio de uma nova fase possibilitando novas idéias e abordagens. O novo modelo de escrever um conhecimento historiográfico que contivessem os rigores exigidos no planejamento trouxe grandes mudanças no estilo e no conteúdo.
Os fundadores do IHGB encontraram um clima favorável para sua implantação, já que no Brasil se encontrava uma pequena porção de intelectuais, que tinha ampla ligação com a coroa e que nesta época de forma mais contextualizada possuíam enraizados o Romantismo, que valorizavam e enaltecia a imagem do índio e da flora.
Para Francisco Iglesias os novos trabalhos produzidos tiveram uma linha de pensamento mais rigorosa, como também a própria valorização da pesquisa. A intencionalidade era tornar o conhecimento já produzido em uma tese que fosse possível ser ensinada e orientada. Mas isso só será possível, quando realmente enfim, este fato se torna preocupante por parte dos intérpretes em escrever a Historia do Brasil.

Um dos resultados mais notáveis da instituição será a Revista, com a publicação dos textos fundamentais do período colonial, como documentos do governo português, memórias e escritos, de toda natureza, de séculos anteriores, notadamente do Setecentos. Assim, o Instituto trabalha com intensidade em seus primeiros decênios, quando realiza esforços na linha do que do que há mais de atualizado na historiografia geral[3].

Embora a criação do Instituto trouxesse novos apontamentos e novo caráter diante da realidade estudada, as obras publicadas pelos intérpretes tiveram grande importância para os intelectuais da época. O trabalho que obteve mais repercussão foi a publicação da Revista. A respeito dela, podemos observar diante da afirmação feita por Francisco Iglesias, que ela representou um grande respaldo no que diz respeito a produção do conhecimento de caráter mais historiográfico. Embora tenha sido um trabalho de conhecimento histórico, sofreu fortemente influência em sua produção. O resultado desse trabalho está inteiramente enquadrado nos moldes do paradigma europeu. Os textos produzidos são todos de caráter político, econômico e oficial. Igualmente aos primeiros textos que eram de natureza narrativa e descritiva voltados para os interesses da Coroa. Com o Instituto, os intérpretes têm uma nova visão com relação as suas fontes de pesquisas, as fontes oficiais ganham grande destaque, embora influenciados pela neutralidade diante dessas fontes por parte dos ensinamentos do Positivismo.
Percebo que o Instituto sofreu importante influencia externa, ou seja, influência das academias européias. Para a comprovação dessa influência, podemos notar a forte ligação carismática dos intérpretes com a coroa presente no Brasil, influenciando na produção historiográfica. Grande parte dos intelectuais pertencentes ao IHGB, eram de origem de famílias ligadas à Coroa.
Cabe mencionar aqui alguns dos famosos intérpretes que contribuíram fortemente com as suas obras. Karl Friederich Philipp Von Martius, de origem alemã, botânico, veio para o Brasil em 1817. Martius tinha preocupação em desenvolver um trabalho que pudesse serviria de modelo para os demais. Buscando a aprimorarão das idéias e argumentos, Martius percebe que a Historia do Brasil deveria ser escrita de modo diferenciado do que já se havia produzido. Através do trecho abaixo, vemos que os intérpretes tinham agora, certa preocupação historiográfica em escrever a historia do Brasil. Preocupados com o rigor que deveriam tomar no posicionamento da produção, os viés interpretativos acabaram ganhando novas abordagens e texturas. Os textos já não possuíam caráter narrativo e descritivo e sim, interpretações da realidade vivida.
É É claro que o modelo de Martius não é perfeito, mas representa avanço para o seu tempo. Fala em uma historiografia filosófica do Brasil, em um “historiador filosófico”(quatro vezes), historiador reflexivo, em historiador pragmático, historia pragmática do pais (duas vezes). Pretende pois reflexão critica, de modo a atender “as exigências da verdadeira historiografia”, como pede; a seu ver, as obras dedicadas até então a historia das províncias (quer significar por certo todos os textos da historia nacional), “se ressentem demais de certo espírito de crônicas”, em justa observação. Vai contribuir para superar esse estado, lançando algumas idéias a serem seguidas[4].


Martius deixou de lado os assuntos referentes a vida política, temas cujos interesses estavam correlacionados com os governos, lutas e vitórias, dando destaque, sobretudo, aos assuntos de cunho étnicos. Além das descrições étnicas presentes em sua produção, ele tornou seu trabalho importantíssimo, devido as considerações críticas e interpretações feitas a cada situação, ao papel exercido por cada personagem incluso na montagem do cenário brasileiro.
Ele fez um estudo importante a respeito do papel desempenhado pelo português, fez devidas interpretações de suas ações e formas de dominação realizadas. Acredita no potencial sistema português em dominar a colônia, como também observa a situação em que se encontrou o índio, sendo submetido e resistindo a dominação. Questiona o papel do negro ao ser incrementado neste cenário dominador. Martius deixa transparecer sua sensibilidade na produção, fazendo interpretações a respeito do cotidiano vivido por cada personagem como também suas mentalidades. Interessante sua rejeição às abordagens dos temas relacionados aos governos para tratar da mentalidade dos grupos étnicos. Para dar ênfase a sua obra, ele faz um desfecho em seu trabalho, afirmando que a história do Brasil deveria ser escrita com elementos totalizados que representassem de forma geral as relações entre o Brasil e Portugal. Diferente das crônicas que tratavam apenas de lugares com especificidades, de uma realidade regional, diante uma dimensão diversificada. Para ele, a história do Brasil deveria conter abordagens generalizadas, já que o país possuía uma diversidade de regiões com peculiaridades próprias.
Um outro intérprete que contribuiu para a produção historiográfica foi Francisco Adolfo de Varnhagen, nascido em Sorocaba, na província de São Paulo, em 1816. Filho de alemão e de uma portuguesa. Pertencia a uma família muito conceituada.
Observando a fala do autor, percebo que nela se encontra uma nova abordagem temática com relação à produção historiográfica do Brasil. Diferente de Von Martius que se deteve em escrever uma historia a respeito dos grupos étnicos, tratando das lutas e resistências que os negros e índios enfrentaram, como também das imposições dos portugueses à esses dois grupos. Varnhagem prefere trabalhar com o gênero literário. O que ele produziu traz resquícios de sua criação artísticos, imaginativos e congênitos do autor em suas pesquisas realizadas.
Decerto, construiu enorme obra, com dezenas de títulos sobre documentos básicos, que editou, nem sempre com o devido rigor; com preocupações literárias, publicou também alguns textos de criação artísticas coligidos em pesquisas, notadamente em poesia. Ele mesmo cultivou a ficção, co uma lenda, um drama e um romance, destituídos de qualidades. Teve pretensões, mas não era particularmente dotado para a arte de escrever: seu texto é destituído de qualquer garra de escritor (coisa comum na historiografia nativa, alias, na qual poucos revelam a qualificação de bom gosto, linguagem e estilo)[5].
Apesar de Varnhagen não ter o domínio das técnicas exigidas para a produção do conhecimento historiográfico, ele produziu obras surpreendentes que serviram como modelos para os futuros literários. Ele pretendia construir uma história do Brasil com uma linguagem que não exigissem métodos tão rigorosos. Uma linguagem que não fosse tão romantizada, mas que tornasse visível sua pretensão.
Antonio Candido, como Joaquim Noberto de Sousa e Silva, considera o autor um benemérito. Todos os historiadores da literatura recorrem a Varnhagen, como se vê em Sílvio Romero, José Veríssimo, Nelson Werneck Sodré, Antonio Candido[6].

Varnhagen, além de erudito, fez criticas aos grupos étnicas que compuseram o cenário colonial de forma explicita e direta. Observando a fala de Francisco Iglesias, no trecho abaixo, notamos que a mentalidade dos intérpretes desse período é ainda conservadora e reacionária. As críticas feitas às etnias acabavam sempre exaltando o europeu os seus sistemas político, econômico e religiosos.
Fala freqüentemente, quanto ao índio, em “ferozes assassinos de nosso primeiro bispo”. Quanto ao negro, em “bárbaro aquilombado”; quanto ao branco, em “ferozes mascates”. Nunca teve simpatia pelo índio. Sua época assistiu à escola literária do indianismo, tão festejada em verso e prosa. Não participou da onda[7].

Pelo fato dele ser um erudito e conservador em suas pesquisas com os documentos oficiais, ele apresenta a realidade vivida pela elite, suas ações, concepções, mentalidade e criticas. Embora sua critica fosse voltada para os grupos étnicos, sem perceber, ele mostrou a face cruel do sistema vigente. Ele faz referência a respeito dos desentendimentos entre as autoridades. Faz menção dos abusos praticados por elas, como por exemplo, corrupção, perseguição e desrespeito à autoridade. Embora ele tenha deixado transparecer esse lado cruel do português, para não perder o seu prestigio como intelectual, ele defende os atos praticados pela coroa. Defende a escravidão do negro, a perseguição ao índio.Tomando esses grupos como elementos de submissão ao português. Ainda que com a instalação do IHBG, trouxesse mudança na forma de se escrever a história do Brasil, nas abordagens, nas temáticas, nas interpretações, não pode pôr fim a mentalidade do português, como também não trouxe mudança quanto aos atos praticados. O IHGB veio ainda tornar mais forte o pensamento da coroa e formular uma pretensa ideologia nacionalista por parte do português.


[1] Artigo apresentado na disciplina Historiografia Brasileira com base nas leituras do livro Historiadores do Brasil, de Francisco Iglesias.
[2] Aluno do 3º. Semestre do Curso de Historia da Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos – FAFIDAM/UECE.
[3] IGLÉSIAS, Francisco. Historiadores do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Belo Horizonte: UFMG, 2000, p. 62.
[4] IGLÉSIAS, Francisco. Historiadores do Brasil. Op. cit. p. 67.
[5] IGLÉSIAS, Francisco. Historiadores do Brasil. Op. cit. P. 72
[6] IGLÉSIAS, Francisco. Historiadores do Brasil. Op. cit. P. 73.
[7] IGLÉSIAS, Francisco. Historiadores do Brasil. Op. cit. P. 82.

O IHGB E A PRODUCÃO HISTORIOGRAFICA BRASILEIRA.[1]

Jucelio Regis da Costa[2].



O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foi criado em 1838 durante o período Regencial, tomando como referência uma produção que pudesse conter um caráter realmente historiográfico. Francisco Iglesias afirma que a criação do Instituto trouxe o fim para a época que lhe antecedeu, como também revelou o inicio de uma nova fase possibilitando novas idéias e abordagens. O novo modelo de escrever um conhecimento historiográfico que contivessem os rigores exigidos no planejamento trouxe grandes mudanças no estilo e no conteúdo.
Os fundadores do IHGB encontraram um clima favorável para sua implantação, já que no Brasil se encontrava uma pequena porção de intelectuais, que tinha ampla ligação com a coroa e que nesta época de forma mais contextualizada possuíam enraizados o Romantismo, que valorizavam e enaltecia a imagem do índio e da flora.
Para Francisco Iglesias os novos trabalhos produzidos tiveram uma linha de pensamento mais rigorosa, como também a própria valorização da pesquisa. A intencionalidade era tornar o conhecimento já produzido em uma tese que fosse possível ser ensinada e orientada. Mas isso só será possível, quando realmente enfim, este fato se torna preocupante por parte dos intérpretes em escrever a Historia do Brasil.

Um dos resultados mais notáveis da instituição será a Revista, com a publicação dos textos fundamentais do período colonial, como documentos do governo português, memórias e escritos, de toda natureza, de séculos anteriores, notadamente do Setecentos. Assim, o Instituto trabalha com intensidade em seus primeiros decênios, quando realiza esforços na linha do que do que há mais de atualizado na historiografia geral[3].

Embora a criação do Instituto trouxesse novos apontamentos e novo caráter diante da realidade estudada, as obras publicadas pelos intérpretes tiveram grande importância para os intelectuais da época. O trabalho que obteve mais repercussão foi a publicação da Revista. A respeito dela, podemos observar diante da afirmação feita por Francisco Iglesias, que ela representou um grande respaldo no que diz respeito a produção do conhecimento de caráter mais historiográfico. Embora tenha sido um trabalho de conhecimento histórico, sofreu fortemente influência em sua produção. O resultado desse trabalho está inteiramente enquadrado nos moldes do paradigma europeu. Os textos produzidos são todos de caráter político, econômico e oficial. Igualmente aos primeiros textos que eram de natureza narrativa e descritiva voltados para os interesses da Coroa. Com o Instituto, os intérpretes têm uma nova visão com relação as suas fontes de pesquisas, as fontes oficiais ganham grande destaque, embora influenciados pela neutralidade diante dessas fontes por parte dos ensinamentos do Positivismo.

Percebo que o Instituto sofreu importante influencia externa, ou seja, influência das academias européias. Para a comprovação dessa influência, podemos notar a forte ligação carismática dos intérpretes com a coroa presente no Brasil, influenciando na produção historiográfica. Grande parte dos intelectuais pertencentes ao IHGB, eram de origem de famílias ligadas à Coroa.

Cabe mencionar aqui alguns dos famosos intérpretes que contribuíram fortemente com as suas obras. Karl Friederich Philipp Von Martius, de origem alemã, botânico, veio para o Brasil em 1817. Martius tinha preocupação em desenvolver um trabalho que pudesse serviria de modelo para os demais. Buscando a aprimorarão das idéias e argumentos, Martius percebe que a Historia do Brasil deveria ser escrita de modo diferenciado do que já se havia produzido. Através do trecho abaixo, vemos que os intérpretes tinham agora, certa preocupação historiográfica em escrever a historia do Brasil. Preocupados com o rigor que deveriam tomar no posicionamento da produção, os viés interpretativos acabaram ganhando novas abordagens e texturas. Os textos já não possuíam caráter narrativo e descritivo e sim, interpretações da realidade vivida.

É claro que o modelo de Martius não é perfeito, mas representa avanço para o seu tempo. Fala em uma historiografia filosófica do Brasil, em um “historiador filosófico”(quatro vezes), historiador reflexivo, em historiador pragmático, historia pragmática do pais (duas vezes). Pretende pois reflexão critica, de modo a atender “as exigências da verdadeira historiografia”, como pede; a seu ver, as obras dedicadas até então a historia das províncias (quer significar por certo todos os textos da historia nacional), “se ressentem demais de certo espírito de crônicas”, em justa observação. Vai contribuir para superar esse estado, lançando algumas idéias a serem seguidas[4].


Martius deixou de lado os assuntos referentes a vida política, temas cujos interesses estavam correlacionados com os governos, lutas e vitórias, dando destaque, sobretudo, aos assuntos de cunho étnicos. Além das descrições étnicas presentes em sua produção, ele tornou seu trabalho importantíssimo, devido as considerações críticas e interpretações feitas a cada situação, ao papel exercido por cada personagem incluso na montagem do cenário brasileiro.
Ele fez um estudo importante a respeito do papel desempenhado pelo português, fez devidas interpretações de suas ações e formas de dominação realizadas. Acredita no potencial sistema português em dominar a colônia, como também observa a situação em que se encontrou o índio, sendo submetido e resistindo a dominação. Questiona o papel do negro ao ser incrementado neste cenário dominador. Martius deixa transparecer sua sensibilidade na produção, fazendo interpretações a respeito do cotidiano vivido por cada personagem como também suas mentalidades. Interessante sua rejeição às abordagens dos temas relacionados aos governos para tratar da mentalidade dos grupos étnicos. Para dar ênfase a sua obra, ele faz um desfecho em seu trabalho, afirmando que a história do Brasil deveria ser escrita com elementos totalizados que representassem de forma geral as relações entre o Brasil e Portugal. Diferente das crônicas que tratavam apenas de lugares com especificidades, de uma realidade regional, diante uma dimensão diversificada. Para ele, a história do Brasil deveria conter abordagens generalizadas, já que o país possuía uma diversidade de regiões com peculiaridades próprias.
Um outro intérprete que contribuiu para a produção historiográfica foi Francisco Adolfo de Varnhagen, nascido em Sorocaba, na província de São Paulo, em 1816. Filho de alemão e de uma portuguesa. Pertencia a uma família muito conceituada.
Observando a fala do autor, percebo que nela se encontra uma nova abordagem temática com relação à produção historiográfica do Brasil. Diferente de Von Martius que se deteve em escrever uma historia a respeito dos grupos étnicos, tratando das lutas e resistências que os negros e índios enfrentaram, como também das imposições dos portugueses à esses dois grupos. Varnhagem prefere trabalhar com o gênero literário. O que ele produziu traz resquícios de sua criação artísticos, imaginativos e congênitos do autor em suas pesquisas realizadas.

Decerto, construiu enorme obra, com dezenas de títulos sobre documentos básicos, que editou, nem sempre com o devido rigor; com preocupações literárias, publicou também alguns textos de criação artísticas coligidos em pesquisas, notadamente em poesia. Ele mesmo cultivou a ficção, co uma lenda, um drama e um romance, destituídos de qualidades. Teve pretensões, mas não era particularmente dotado para a arte de escrever: seu texto é destituído de qualquer garra de escritor (coisa comum na historiografia nativa, alias, na qual poucos revelam a qualificação de bom gosto, linguagem e estilo)[5].


Apesar de Varnhagen não ter o domínio das técnicas exigidas para a produção do conhecimento historiográfico, ele produziu obras surpreendentes que serviram como modelos para os futuros literários. Ele pretendia construir uma história do Brasil com uma linguagem que não exigissem métodos tão rigorosos. Uma linguagem que não fosse tão romantizada, mas que tornasse visível sua pretensão.

Antonio Candido, como Joaquim Noberto de Sousa e Silva, considera o autor um benemérito. Todos os historiadores da literatura recorrem a Varnhagen, como se vê em Sílvio Romero, José Veríssimo, Nelson Werneck Sodré, Antonio Candido[6].


Varnhagen, além de erudito, fez criticas aos grupos étnicas que compuseram o cenário colonial de forma explicita e direta. Observando a fala de Francisco Iglesias, no trecho abaixo, notamos que a mentalidade dos intérpretes desse período é ainda conservadora e reacionária. As críticas feitas às etnias acabavam sempre exaltando o europeu os seus sistemas político, econômico e religiosos.

Fala freqüentemente, quanto ao índio, em “ferozes assassinos de nosso primeiro bispo”. Quanto ao negro, em “bárbaro aquilombado”; quanto ao branco, em “ferozes mascates”. Nunca teve simpatia pelo índio. Sua época assistiu à escola literária do indianismo, tão festejada em verso e prosa. Não participou da onda[7].


Pelo fato dele ser um erudito e conservador em suas pesquisas com os documentos oficiais, ele apresenta a realidade vivida pela elite, suas ações, concepções, mentalidade e criticas. Embora sua critica fosse voltada para os grupos étnicos, sem perceber, ele mostrou a face cruel do sistema vigente. Ele faz referência a respeito dos desentendimentos entre as autoridades. Faz menção dos abusos praticados por elas, como por exemplo, corrupção, perseguição e desrespeito à autoridade. Embora ele tenha deixado transparecer esse lado cruel do português, para não perder o seu prestigio como intelectual, ele defende os atos praticados pela coroa. Defende a escravidão do negro, a perseguição ao índio.Tomando esses grupos como elementos de submissão ao português. Ainda que com a instalação do IHBG, trouxesse mudança na forma de se escrever a história do Brasil, nas abordagens, nas temáticas, nas interpretações, não pode pôr fim a mentalidade do português, como também não trouxe mudança quanto aos atos praticados. O IHGB veio ainda tornar mais forte o pensamento da coroa e formular uma pretensa ideologia nacionalista por parte do português.



[1] Artigo apresentado na disciplina Historiografia Brasileira com base nas leituras do livro Historiadores do Brasil, de Francisco Iglesias.
[2] Aluno do 3º. Semestre do Curso de Historia da Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos – FAFIDAM/UECE.
[3] IGLÉSIAS, Francisco. Historiadores do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Belo Horizonte: UFMG, 2000, p. 62.
[4] IGLÉSIAS, Francisco. Historiadores do Brasil. Op. cit. p. 67.
[5] IGLÉSIAS, Francisco. Historiadores do Brasil. Op. cit. P. 72
[6] IGLÉSIAS, Francisco. Historiadores do Brasil. Op. cit. P. 73.
[7] IGLÉSIAS, Francisco. Historiadores do Brasil. Op. cit. P. 82.